Por que elas tinham um gosto tão bom? Por que furtá-las era tão prazeroso? Por que eram tão vermelhas e chamativas? Por quê?
Foi meu primeiro furto. Mas foi lindo. Acho que até as cerejas que foram arrancadas de sua mãe, sorriram para mim.
– Sophia! – gritou meu companheiro de furto, e melhor amigo.
Desci com certa pressa e cautela, mas o fato de estar com os braços envolvendo centenas de cerejas não ajudava a descer de uma árvore. Estava indo de encontro ao chão. Já estava até vendo: eu me espatifanto no chão junto com os lindos frutos vermelhos-sangue. Poft. Sobraria uma garota machucada e centenas de cadáveres vermelhos. Mas antes do meu encontro com o chão, dois braços magrelos me seguraram. Olhei para meu melhor amigo e sorri como agradecimento, mas ele não viu, ele olhava para as cerejas, e viu que nenhuma havia se machucado. Ele sorriu de alivio.
– Rápido, pegue a sua parte! – estendi um punhado das frutas vermelhas a ele, e as aconchegamos nos bolsos de nossos casacos. Começamos a correr.
Sabíamos que era errado, mas era tão divertido, tão perigoso, tão descuidadamente infantil. Corríamos depressa, sabíamos que o jardineiro ia chegar a qualquer momento, só estava esperando o momento certo. Ouvimos uma porta bater ao longe. O coração pulou para a garganta, corremos mais depressa, e mais depressa, até que não sentíamos mais o ar entrar em nossos pulmões, só sentíamos nossos pés batendo com força sobre a grama perfeitamente cortada. Como era enorme e belo aquele jardim. Desaceleramos um pouco o passo para ver se o ar voltava, voltou. Ainda tínhamos que correr, pois podiamos escutar o jardineiro gritando atrás de nós. Nunca imaginei como seria essa sensação de perseguição. Como era boa. Tinha vontade de rir, de gritar de satisfação, mas não tinha ar suficiente em meu pulmão. Droga.
Paramos. Ou melhor, fomos parados. Um enorme muro-vivo se estendia em nossa frente, e era ele que nós iriamos escalar. Sabíamos como, e por onde começar, mas estávamos exaustos, até as cerejas pediam para descansar. Ouvimos os gritos do jardineiro, estava mais perto do que nós pensávamos. Foram dois segundos para começar a escalar. Um para ouvir o grito, e outro pra respirar. Escalamos muito rápido, as vermelhinhas estremeceram, mas continuamos a subir, não sabíamos se o jardineiro estaria com um machado na mão, melhor ser rápido de escalada caso esse fosse o caso. Enfim no topo. Hora de brincar de mergulho, você é bom de salto?
– Está pronta? – ele segurou minha mão e a apertou, então a soltou e segurou os bolsos e olhou-me esperando minha confirmação. Fiz que sim com a cabeça.
Pulamos. Aterrissar era o de menos, tinha preocupação maior com a cerejas. Depois de quase quicar na grama fofa do parque, nos levantamos rapidamente e fomos correndo pelo parque quase deserto até chegar na nossa árvore. Nos deixamos cair sobre suas raízes, arfando para fora nosso cansaço. Ao recuperar o fôlego, abrimos nossos bolsos, as dividimos igualmente e começamos a comê-las.
Ah, que doce sabor, que doce aroma, que doce cor, que doce formato... o sabor do furto, o aroma do sucesso, a cor da infância e o formato de uma cereja.
